terça-feira, 29 de junho de 2021

 


Tarrafal de Santiago

A designação de Tarrafal sugere-nos logo o expoente máximo da repressão salazarista, o chamado campo da morte lenta, mas há que distinguir a colónia penal e a povoação do Tarrafal tão distintos como o inferno e o paraíso. 


Aspecto geral da instalação provisória do campo de concentração. Autor desconhecido, 1937/38. DGPC





A construção do Campo de Chão Bom, localizado a poucos quilómetros da povoação do Tarrafal da ilha de Santiago, em Cabo Verde, foi ordenada por Salazar em 1935 (Decreto-Lei n.º 26.539), para afastar e eliminar os seus opositores. Logo se transformou num presídio tenebroso, dirigido por Manuel dos Reis, que afirmava aos presos: : “Vocês aqui não têm direitos. Só têm deveres a cumprir! E não se iludam: quem entra aquele portão é para morrer! […] Vão todos cair como tordos!”.

O médico de serviço do campo, Esmeraldo Pais, terá mesmo afirmado não estar ali para curar, mas para assinar certidões de óbito.

De facto, no tempo do seu funcionamento que decorreu entre 1936 e 1954, morreram 32 dos 357 reclusos para lá enviados.

Esteve preso um mortaguense neste campo. Trata-se de Basílio Lopes Pereira, que aí permaneceu entre 1 de março de 1940 e 1 de Junho de 1942.

Encerrado em 1954, pelo ambiente internacional desfavorável resultante do fim da segunda grande guerra, seria reaberto em 1961, pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira, mas agora destinado aos membros dos movimentos independentistas das colónias. Por lá passaram 227 presos de Angola, Cabo Verde e Guiné

Encerraria definitivamente como presídio no dia 1 de Maio de 1974.

Depois disso funcionou como aquartelamento militar, depois da independência


Em 1996 visitei Cabo Verde pela primeira vez e tive a curiosidade de visitar o campo do Chão Bom. Nessa altura encontrava-se abandonado e bastante degradado. Sei que entretanto terá sido transformado no Museu da Resistência de Cabo Verde.

Dessa primeira viagem guardei algumas fotografias

entrada


cozinha 
cela
Holandinha
posto médico

Entretanto a poucos quilómetros de distância deparamo-nos com a povoação do Tarrafal e com uma das mais belas praias de Cabo Verde.

Alguns anos mais tarde, voltei ao Tarrafal onde fiquei instalado durante uma semana. Desse local guardo boas recordações, de que deixo algumas imagens fotográficas.



restaurante junto à praia


empreendimento turístico

a tocar uma morninha
Luisinha à porta do alojamento
Visitas no aldeamento



restaurante junto à praia
Por do sol encantador
























segunda-feira, 28 de junho de 2021

 

São Bartolomeu

Na capela de S. Domingos, em Mortágua, encontramos a imagem de um santo que nos surpreendeu.

Trata-se de S. Bartolomeu que segura um livro na mão direita, possivelmente uma bíblia,  e na mão esquerda uma corrente que sujeita uma figura humanóide, que nos dizem ser o temível mafarrico.

É um dos doze apóstolos de Cristo, ao que diz a tradição popular, o único com poderes absolutos de dominar o diabo.

São Bartolomeu também é referido na Bíblia, como Natanael. Terá pregado no Oriente, chegando até à India.

Diz a tradição que foi morto na Arménia pelo  irmão do rei Polímio, e outros sacerdotes pagãos, que, receando o poder de São Bartolomeu que emudeceu o demónio, rezando “cem vezes por dia, outras tantas de noite”, o martirizaram esfolando-o vivo e decapitando-o num dia 24 de Agosto, no porto de Albanopolis, no Mar Cáspio.

Existe na Capela Sistina uma pintura em que é representado segurando numa mão a sua própria pele e na outra mão um alfange, instrumento utilizado no seu martírio.
As suas relíquias jazem na igreja que lhe foi dedicada, em Roma.

 


 
A imagem actual está relacionada com a lenda que S. Bartolomeu retirou o diabo do corpo de um jovem doente, e depois aprisionou-o com uma corrente.

Existe, na tradição popular, uma relação interessante entre as duas personagens. Não e uma relação de ódio. O santo tem alguma tolerância em relação ao diabo, que liberta uma vez por ano. Por outro lado o diabo serve o santo, com quem tem boas relações.

Em algumas terras o nome de diabo é substituído por outras designações, como “moço”, “ajudante” ou “búgio”.

É nessa linha de raciocínio que, quando um crente obtém alguma graça, faz a sua oferta ao santo, mas reserva uma pequena parte que oferece ao diabo, temendo que se este se sentir menosprezado possa sentir-se ofendido e vingar-se.

S. Bartolomeu é o santo padroeiro dos objectos perdidos, esposas enganadas, dos padeiros, dos alfaiates e dos sapateiros, curtidores, luveiros, encadernadores, etc. É também o advogado das doenças das crianças (medo, gaguez, atraso na fala, epilepsia, etc.), exorcista, protector de males com sintomas de possessão demoníaca, etc.


sábado, 19 de junho de 2021

 

Aníbal Dias,   “Kamutar”




Recentemente, um companheiro dos meus tempos de Nova Lisboa, cidade hoje conhecida por Huambo, enviou-me uma fotografia de uma figura conhecida por todos os habitantes, e por eles muito estimada e respeitada.

Trata-se de Aníbal Dias, um senhor de avançada idade, que recolhia e guardava num pequeno armazém tudo o que encontrava na rua e que aos outros parecia inútil. Muitas vezes solicitava serviços e nem perguntava quanto tinha de pagar, porque não o tencionava fazer.

Nunca pagou selos para cartas ou encomendas, destinadas a toda a extensão da linha de Caminho de Ferro de Benguela. Dirigia-se á estação de Nova Lisboa, abeirava-se de um viajante e encarregava-o de entregar a missiva a um destinatário que nem sequer conhecia. E fazia-o de modo tão convincente que ninguém recusava a missão.

Por vezes pegava numa bicicleta que encontrava estacionada e servia-se dela enquanto entendesse; e se o dono o questionasse respondia que a tinha encontrado abandonada. O dono acabava por se conformar, como se fosse um tributo devido ao velho Aníbal.

Já não consigo relembrar as muitas histórias que ouvi sobre o velho “Kamutar”, alcunha de que desconheço o significado, e que lhe foi atribuída pelos africanos. Perdura na minha memória, com carinho, a lembrança daquela figura ímpar que conheci na  minha infância. 

 

Ovelhas que comem ajoelhadas

 

Quando caminhava pelo percurso pedestre entre a ponte de Vale de Açores e a Quinta das Nogueiras, deparei-me com uma cena que nunca tinha visto. Um rebanho de ovelhas pastava calmamente num terreno cercado, mas algumas delas ajoelhavam para comer. É a primeira vez, em quase sete décadas de vida, que assisto a um procedimento destes.

Não sei se é um puro acaso, mas observei que as ovelhas que tinham esse comportamento todas tinham a lã escura. Havia muitas outras ovelhas de lã clara a pastar no mesmo terreno, sem que nenhuma delas ajoelhasse para comer.

Aqui deixo algumas fotografias que tirei.








segunda-feira, 14 de junho de 2021

 

Ti Piedade Ligeira

e a sua capacidade de desconcertar os letrados


 


A extraordinária mulher conhecida por Piedade Ligeira, natural de Vila Nova, tinha um dom que cultivou – rimar de improviso sobre qualquer situação, utilizando uma linguagem vernácula que desconcertava muitos letrados, que a provocavam para ouvir as suas respostas repentinas.

As suas rimas não foram registadas e, mesmo as que foram temporariamente retidas pela memória dos contemporâneos, acabaram por ser esquecidas, ou por partir com quem as guardava.

Até mim chegaram apenas três que vou tentar reproduzir embora censuradas, deixando ao leitor a tarefa de as reconstituir preenchendo com letras os espaços deixados em aberto.

1 – A cantar ao desafio com um cantor afamado, na romaria da Santa Eufémia, este avançou com a quadra:

Há sete anos sou casado

Sete mulheres conheci

E que Deus seja louvado

Ainda estou como nasci,

ao que a Ti Piedade Ligeira respondeu, deixando o adversário sem resposta:

 

Minha rica Santa Eufémia

Anda cá fazer justiça

Este homem é capado

Ou então nasceu sem p_ç_.


2 - A professora primária, Maria Céu Santos, sabendo da fama da Ti Piedade, desafiou-a a dizer uma das sua quadras “picantes”. Ela não se fez rogada:

Com M se escreve Maria

Com M se escreve Mulher

Com C se escreve C_r_l_o

Que é o que a senhora quer.

 

3 – Estando à porta dos Armazéns Lobo, o Dr. Bráulio Afonso que a conhecia bem, ao vê-la passar chamou-a: Ti Ligeira…

Foi de imediato premiado com uma quadra, à maneira de resposta:

 

Ouvi chamar “Ti Ligeira”

E virei-me de repente

Sou como a pele do C_r_l_o

Que anda pra trás e prá frente.

 

Assim deixava bem dispostos, e sem resposta, os letrados que a desfiavam.

sábado, 12 de junho de 2021

 

Carnaval de 1965

 

Em 1965, com 13 anos de idade, o Carnaval tinha um significado importante para mim, como para os outros miúdos da aldeia. Penso que era a oportunidade de simular uma figura que despertasse em nós admiração, medo, poder, repulsa, ou outro sentimento forte.

Sem dinheiro para comprar grandes disfarces, porque era necessário para coisas muito mais importantes, recorríamos ao que estava ao nosso dispor para criar uma figura que servisse para nos divertirmos.

E aqui está o resultado. Um fardamento que se mantinha lá por casa desde que o meu pai tinha andado na tropa, um sabre guardado em casa do José Jorge desde as invasões francesas, ou das guerras liberais, a cara enfarruscada, e eu fiquei transformado num valente e garboso soldado, pronto para todas as batalhas.

Umas ligaduras, uns óculos, um chapéu e uma gabardina, transformaram o José Jorge Ferreira num Homem Invisível, como podemos ver muito bem.

O Caneco envergou uma máscara que nos faz lembrar polícia francês, ou o que quer que seja, mas estava criado um personagem de grande intensidade cénica.

A casa que nos serve de fundo era do Ti Armando Anão.

Infelizmente já não me lembro das aventuras que vivemos nesse dia.





sexta-feira, 11 de junho de 2021

 

Festival José Afonso – Malpica do Tejo


José Afonso foi um autor inspirado de muitas músicas e poemas, que cantou com a excepcional qualidade da sua voz, e a sua extraordinária capacidade interpretativa. Mas, além do que criou, recolheu também algumas joias da cultura musical popular, que valorizou e divulgou, dando novo vigor a uma vida já um tanto apagada.

Nas pesquizas que realizou, recolheu quatro canções na aldeia de Malpica do Tejo, do distrito de Castelo Branco, a saber:  

Maria Faia, Oh que calma vai caindo, Lá vai Jeremias, Moda do entrudo.

Algumas pessoas residentes em Malpica, conseguiram motivar as entidades locais e distritais, e em conjunto passaram a realizar um festival anual em homenagem a José Afonso, num local aprazível, o Jardim do Olival, onde implantaram um busto do cantor, que encomendaram a um escultor.

O festival tem contado desde o início com a participação do cantor e compositor João Afonso, sobrinho do homenageado, que habitualmente encerra o evento.

Fui convidado a participar nas duas primeiras edições, o que fiz com muito agrado. Em relação ao primeiro encontro, o convite ocorreu quando o programa já estava para impressão, pelo que o meu nome não consta da lista.

No entanto a organização teve a amabilidade de me oferecer um certificado de participação:  

Eis algumas fotografias:



No ano seguinte voltei a ser convidado, mas desta vez já a tempo de constar do cartaz.



Algumas recordações fotográficas


Vitor Sá e João Afonso

Custódio Castelo

Miguel Carvalhinho

Custódio Castelo e Miguel Carvalhinho

Aconteceu nesta edição um desentendimento entre  elementos da organização, resultante de um programa demasiadamente extenso e de alguns atropelos inconcebíveis no alinhamento.

Cometi o erro de manifestar a minha opinião, dando razão a uma parte, por sinal em oposição aos organizadores que até então me convidavam. Nunca mais fui convidado…

Pois bem, vejo com agrado que o Festival continuou a ser realizado, com participação de figuras muito mais mediáticas do que eu, e que certamente contribuirão para a popularidade do evento. 

Sinceramente, desejo as maiores felicidades ao Festival e à acolhedora e lindíssima Malpica do Tejo, que além do mais tem uma riquíssima gastronomia. Recomendo vivamente uma visita, quando tiverem oportunidade.