quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Um fumo sombrio
 
Há o fumo branco que aparece para dizer "Habemus Papam". Existe também o fumo negro da corrupção. Mas deste que hoje publicamos, não lhe conhecemos a natureza. Foi  captado por nós, obviamente no Inverno, junto á Câmara Municipal de Mortágua, e apresenta uma sombra negra sobre o fumo branco. Não nos atrevemos  a atribuir-lhe qualquer significado.
 
 


Orquídea Gigante
 
 Em tempos tive em minha casa uma orquídea de tamanho gigante  e com um perfume intenso. Infelizmente, um tratamento inadequado (excesso de água) levou à morte tão bela flor. Alguns anos depois fui encontrar no quintal de um amigo meu, na cidade de Niterói, próxima do Rio de Janeiro, uma orquídea igual à que eu tivera, embora não tivesse o mesmo perfume, talvez por ser nessa altura a estação do ano mais chuvosa. Pude no entanto fotografá-la num meio natural. Estava implantada numa grande mangueira no jardim. Aqui vão as imagens.
 
 
 



quarta-feira, 23 de agosto de 2017


A Táctica

O Ti Custódio Coelho veio para Mortágua por volta de 1930 para jogar futebol na Escola Livre, e acabou por aqui casar e criar os seus filhos. Trabalhava como sapateiro, porque nesse tempo não havia futebolistas profissionais. Inicialmente trabalhou numa sapataria da Gândara, que era propriedade do Sr. Gualter Pires. A sapataria era também frequentada pelo António Pires, irmão do proprietário, mais tarde também conhecido pela alcunha de “Copito”, que se iniciava como aprendiz.
Os tempos eram muito difíceis e por vezes a fome apertava. Uma das vizinhas tinha no seu quintal uma macieira carregada de reluzentes frutos, que faziam salivar os pobres sapateiros.
Um dia o Ti Custódio chamou de parte o Tonito e deu-lhe a táctica, com a pronúncia sibilante das gentes de Viseu:
-“Oh Tonito, tu pegas neste balde e quando chegares ao portão da vizinha, gritas bem alto – Ti Maria…Ti Maria….. Xe ela responder, pedes-lhe água. Xe não responder … avanxas na maxã !...”

 
As formigas
 
O Dr. José Sacras passeava pela várzea de Mortágua, a controlar a evolução dos trabalhos nas suas propriedades, quando encontrou um vizinho já com idade avançada a cuidar da sua terra. Com o espírito de humor que o caracterizava, cumprimentou-o, e logo de seguida inquiriu, apontando para o cabeço do Senhor do Mundo, situado á distância de vários quilómetros:
 
-Oh António, consegues ver aquele carreirito de formigas, ali no cimo do cabeço?
 
O António que conhecia bem as tiradas do Dr. Sacras, fingiu tentar fixar a vista no cume do cabeço e respondeu:
 
-Oh senhor doutor, a minha vista já está fraca e não consigo ver as formigas, mas ouço-lhe bem os passos...


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A água do poço
 
 
Acabadas as vindimas, os agricultores tinham  por hábito
trocar informações sobre a quantidade e qualidade provável do vinho que tinham produzido.
O nosso já conhecido dr. José Ferreira Sacras, além de notário era também um agricultor de grandeza considerável, no contexto  local. Vendo passar à sua porta um pequeno agricultor com quem mantinha boas relações, logo indagou:
 
-"Então Manel, como é que correu a tua vindima? O vinho tem boa graduação?"
 
O Manuel comentou:
 
"Oh sr. Doutor o vinho parece bom. Tem uma graduação aí de dez e meio ,....onze..."
 
O dr. Sacras deu uma gargalhada e sentenciou:
 
-" Oh homem isso nem é vinho...oito graus tem a água do meu poço..."
 

O Bife do Fontes
 
Durante muitos anos o café Moçambique, situado na praça da República, em Coimbra, foi um dos locais mais frequentados pelos estudantes, e antigos estudantes que foram permanecendo pela cidade. Decorria a década de 60 do século passado, quando um estudante pediu um bife para almoçar. Servido o prato e iniciada a refeição, logo o proprietário, o Sr. Fontes, conhecido pelas suas calinadas, perguntou atenciosamente ao cliente:
 
- "Então Sr. Dr., o bifezinho está bom?" .
 
O cliente desagradado com a qualidade da carne e da confecção, respondeu:
 
- "Oh Sr. Fontes, este bife está uma autêntica porcaria!...",
 
O Fontes retorquiu indignado:
 
- "Oh  senhor Doutor, não se ponha com brincadeiras!... Não diga isso!..
 
Olhe que ainda há pouco esteve aqui a almoçar um doutor juiz que me
 
disse que o bife estava verdadeiramente execrável !..."


segunda-feira, 14 de agosto de 2017



O Piloto, um cão extraordinário !...

 O Dr. José Ferreira Sacras, Notário em Mortágua na primeira metade do Século XX, era dotado de grande sentido de humor, sempre disposto a contar uma história  com o ar mais sério do mundo, mas que os ouvintes facilmente percebiam ser uma graçola inocente, que dificilmente poderia ser considerada uma mentira.

Além de Notário, era também agricultor, e tinha a paixão pela pesca e pela caça.

Um dia de “abertura” da época de caça, o Dr. Sacras e o seu filho Ângelo foram caçar. A partir de determinada hora constataram que o seu fiel perdigueiro, o Piloto, tinha desaparecido do seu campo de visão. Procuraram  em alguns dos locais por onde tinham passado, mas não conseguiram encontrar o companheiro.

Foi com grande pesar que contaram a história aos amigos, pedindo que se alguém tivesse alguma notícia do Piloto os contactasse. Mas todos os esforços foram infrutíferos. O tempo foi passando, mas do Piloto ninguém deu novas.

No ano seguinte o Dr. Sacras voltou a fazer a abertura da caça, e ao fim do dia reuniu com os colegas caçadores e contou a sua aventura:

“ Rapazes, vocês nem imaginam o que me aconteceu…

Fui à caça com o meu Ângelito para a mesma zona em que caçamos no ano passado. A certa altura, junto de uma moita, vi qualquer coisa estranha e fui espreitar. E não é que vou deparar com  o esqueleto do meu cão Piloto amarrado ao esqueleto de uma perdiz.
Aquilo sim, é que era um cão… amarrou à perdiz e como eu não mandei levantá-la, ficou ali com ela amarrada até morrerem os dois …de fome!…

Vai ser muito difícil arranjar outro como ele….”

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Migado ou de barrufo?
 


No primeiro quartel do séc. XX era frequente os médicos do concelho de Mortágua deslocarem-se muitos quilómetros, por maus caminhos, a pé ou a cavalo, para observarem os seus pacientes. Essas deslocações eram demoradas e sem duração prevista. Numa dessas ocasiões, o Dr. Joaquim Tavares Festas aceitou o almoço que os familiares do doente lhe ofereceram, dado que estava com fome, e tinha pela frente algumas horas de caminho até chegar a sua casa.

Foi-lhe servido um prato de batatas com sardinha salgada, que era um pitéu para quem vivia no isolamento da serra . A dona da casa indagou se o sr. doutor queria azeite e alho para temperar a comida. O doutor respondeu afirmativamente e a senhora, muito solícita, logo perguntou: “Quer o alho migado, ou  de barrufo?”.

O convidado não imaginava o que fosse o “barrufo”, mas curioso e decidido a  experimentar, respondeu: “De barrufo, se faz favor.”

De imediato, a anfitriã meteu vários dentes de alho na boca, mastigou-os e borrifou o prato das batatas e sardinha, deixando o ilustre clínico boquiaberto.

Se é fácil imaginar o espanto causado ao doutor, já não conseguimos adivinhar os argumentos que terá usado para escapar à “sardinha barrufada”, sem ofender a senhora.
 
 
 
 
 

domingo, 30 de julho de 2017


A Parede de Pedra
 
Antigamente, as festas e os bailes nas terras pequenas acabavam muitas vezes com cenas de agressão e pancadaria, principalmente quando um homem  estranho à aldeia se insinuava e conseguia alguma aceitação por parte de alguma jovem que fosse pretendida por um rapaz da localidade.
E se a bulha não surgisse ainda durante a festa, o mais provável é que acontecesse logo a seguir, se o estranho não se ausentasse com a necessária rapidez. Mesmo batendo em retirada, não se livrava de sofrer algum percalço.
Foi o que aconteceu ao Olinto.
Depois de uma festa em que as coisas lhe correram pelo melhor, na qual conseguiu despertar o interesse de uma moça de S. Cosmado, nas Aldeias de Gouveia, despediu-se apressadamente dela com promessa de novos encontros, e pôs-se a caminho da vila de Gouveia pelo caminho mais curto.
Mal tinha iniciado a caminhada começaram a chover pedras sobre ele, pelo que correu desesperadamente até sentir que estava muito próximo da vila e era seguro abrandar a corrida.
Ofegante, quando chegou à vila contou a aventura tal como tinha acontecido, e rematou: "  Nem queiram saber!...atiraram-me tantas, tantas  pedras, que até parecia que vinha uma parede a correr atrás de mim ...Só visto!... "

sábado, 29 de julho de 2017

A minha primeira pescaria
 
 
Em Julho de 1963, tendo eu terminado o exame do 2º ano do liceu, e os meus pais chegado recentemente de Angola para passar férias, fomos instalar-nos em Buarcos, numa casa alugada ao sr. João Baptista, trabalhador na fábrica de cimento do Cabo Mondego.
O Sr. João aproveitava todas as folgas, entre os turnos de trabalho, para ir à pesca, que era o seu passatempo preferido. Não tardou muito que desafiasse o miúdo da casa a ir pescar, e numa bela manhã lá fomos os dois para perto do Cabo Mondego. Eu nunca tinha pescado e não estava ainda familiarizado com a técnica dos lançamentos, pelo que me emprestou uma cana com boia, para pescar à beira das rochas, enquanto ele lançava para mais longe.
Acontece que naquele dia, e naquela fase da maré, o peixe devia andar mais
junto à rocha e eu apanhei cinco belos robaletes, enquanto o sr. João "trouxe a grade" para casa. Como costumava sentenciar o meu pai nestes casos: "a sorte acode sempre à ignorância..."
Da aventura  ficou uma fotografia que o meu pai tirou para perpetuar o momento.


Um peixe invulgar

Se não me engano na data, fui a Paris no ano de 2008 assistir a um Simpósio sobre o tratamento de doenças reumáticas, que tinha um programa do qual constava uma visita ao Instituto de Reumatologia de Paris. Numa das salas do Instituto havia, ao centro, um belo e gigantesco aquário, com bonitos peixes coloridos. Apaixonado que sou, desde sempre, por aquários, logo o fui observar atentamente. Deparei-me com um peixe que desconhecia por completo e que, à falta de melhor nome, decidi baptizar de Sócrates. Vá-se lá saber porquê…   



Um colega assumido

Como algumas pessoas saberão fui durante muitos anos ortopedista nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Há mais ou menos 20 anos fui passar uns dias de férias na zona de Castelo Branco, que já não visitava desde os 11 anos de idade. Para minha surpresa, ao circular por uma
 
 estrada secundária, vi pela primeira vez na minha vida uma placa que anunciava a actividade de um profissional, que quase poderia chamar de “colega”, embora não se dedicasse à vertente cirúrgica da profissão. Fotografei a placa e passou a ser o “slide” final das  minhas comunicações em Congressos de Ortopedia. Juro que não recebi nada pela propaganda…
Chamem-lhe Burro!...
 
Numas férias que passei no Nordeste brasileiro, encontrei numa lagoa de água doce, junto às dunas, um "jegue" que me deu uma bela demonstração de sentido prático, quando, ao mesmo tempo, se refrescou do intenso calor que se fazia sentir,  bebeu e comeu erva fresca até se saciar. 

  

Serra da Estrela

Durante os anos que vivi em Mortágua nunca me apercebi, até há 2 anos,  que podia ver a Serra da Estrela. Quando olhava na sua direcção não identificava, nas montanhas que via, a nossa maior serra.  Mas um belo domingo de sol, ao descer pela Avenida Infante D. Henrique, vi  a serra coberta de neve e pela primeira vez a identifiquei. Por sorte tinha a máquina fotográfica à mão, e tratei de a usar. Para meu espanto, a máquina vê muito melhor do que eu, e na fotografia consigo até identificar as estruturas da Torre.



 

 


João Alfredo “o Pépé”
 
Entre 1977 e 1980 trabalhei durante quase três anos no concelho de Gouveia, de que guardo muitas e boas recordações. No convívio com as excelentes pessoas que aí conheci, tive oportunidade de ouvir histórias locais, algumas com alguns matizes trágicos, mas que revelam um extraordinário sentido de humor dos intervenientes. Uma dessas histórias era a de João Alfredo, conhecido pelo “Pépé”, que conheci e fotografei já com cinquenta e tantos anos de  idade . A história passou-se quando tinha por volta de 7 anos.
O sr. Sá , pai do João Alfredo, homem de muitas profissões, desde barbeiro a fotógrafo “a la minute”, constatando que o seu filho tinha evidentes dificuldades visuais, decidiu levá-lo à consulta do Dr. Fernando Pinheiro, oftalmologista.
Tentando avaliar a intensidade da deficiência, o Dr. Pinheiro apontando o quadro optométrico, perguntou ao João Alfredo:
-Então que letra é esta, meu menino?
- Qual letra?  respondeu o João
- Esta, aqui neste quadro!
- Qual quadro?
- Aqui nesta parede!...
- Qual parede?...
O oftalmologista, apercebendo-se da gravidade da situação, tentou explicar ao pai do João Alfredo que iria receitar uns óculos, mas mesmo assim eram melhor ir preparando a criança para uma profissão em que não precisasse de grande acuidade visual.
O sr. Sá ouviu atentamente a explicação, após o que retorquiu ao Dr. Pinheiro:
- Não há problema, Sr. doutor. Está decidido… vai para pescador de baleias….
Infelizmente não havia baleias na Serra da Estrela.
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Propósito

Este blog é destinado a escrever algumas das histórias que vivi, ou ouvi contar, e que tentarei reproduzir com fidelidade. Das que ouvi, não posso assegurar que correspondam à verdade, mas penso que merecem registo, com a esperança de despertar uma gargalhada a algum leitor momentaneamente mais triste.
Publicarei algumas fotografias de minha autoria, e outras em que também sou o objecto da fotografia.
Ocasionalmente publicarei algum  documento interessante que me diga respeito.