quinta-feira, 29 de julho de 2021

 

A Molhelha

Em 1966, os meus pais que por essa época viviam em Angola, vieram passar férias ao torrão natal, onde eu morava há cinco anos em casa dos meus avós maternos e estudava no Externato Infante de Sagres. Terminada a época dos meus exames, decidiram dar uma volta a Portugal que durou cerca de duas semanas. Na primeira semana rumamos  a sul e regressamos a Mortágua; na segunda semana fomos para norte, sempre fazendo muitas etapas. A intenção era conhecer melhor o país, que nunca houvera oportunidade de conhecer.

O meu pai tinha uma máquina fotográfica e íamos captando algumas imagens da nossa viagem. Vasculhando fotografias antigas, encontrei esta que foi obtida na zona de Trás-os-Montes, em localidade que não posso precisar.

 


Para nós foi uma surpresa, ver uma junta de bovinos com algo que pareciam almofadas na cabeça. Confesso que nunca soube o nome que lhes era atribuído, nem a sua função.

Só agora fui procurar a resposta para essas dúvidas. Aquilo que parece uma almofada, chama-se molhelha e serve de facto para suavizar o contacto com o jugo de madeira que une os dois elementos da parelha.



Da internet retiramos também uma fotografia de Américo Correia que nos mostra melhor a estrutura da molhelha e as restantes peças que completam o equipamento.



A figura do carreiro, a fazer uma pausa na sua actividade também é uma imagem que certamente não poderemos ver ao vivo nos dias de hoje.

domingo, 18 de julho de 2021

 

Homem Orquestra


Na segunda metade dos anos oitenta, durante vários anos passei férias na praia de Mira, geralmente acampado no parque municipal, ora em tenda de campismo, ora na roulotte que o meu pai me disponibilizava quando as minhas filhas vinham passar férias comigo.

Tenho boas memórias dessas férias, que beneficiavam do facto de eu anteriormente ter estabelecido relações de amizade com vários residentes da localidade.

Mesmo entre os frequentadores do parque havia um bom ambiente de convívio, dinamizado por campistas que há muito ali passavam as férias. Ainda me lembro dos convívios musicais que ocorriam na zona das tendas da família e amigos do maestro César Anjo, que, para esse efeito, deixavam uma pequena clareira entre elas.

Mas hoje quero deixar-vos as fotografias que tirei deste homem orquestra, que periodicamente aparecia na esplanada do bar do parque, e de quem, infelizmente, não consigo dizer o nome, que se perdeu na bruma do tempo.

Conversei com ele. Disse-me que normalmente trabalhava na agricultura durante todo o ano, mas quando chegava o Verão tirava uns dias para se vestir a preceito, pegar nos seus instrumentos, e ir até aos locais onde se juntavam os turistas mostrar as suas capacidades musicais.

A iniciativa era compensadora do ponto de vista da convivência com outras pessoas, e era economicamente rentável. A execução podia não ser a melhor, mas a música era muito animada.







terça-feira, 29 de junho de 2021

 

Arte de Xávega á maneira antiga  - Mira

xávega é um tipo de pesca artesanal  feita com  um equipamento que é composto dum longo cabo com flutuadores, tendo na sua  parte média uma rede terminada por um saco de rede de forma cónica.

O aparelho é lançado de um barco que deixa em terra uma das extremidades do cabo e vai largando cabo pelo mar adentro até chegar à zona da rede, que é largada paralelamente à costa. O barco regressa a terra, largando a outra metade do cabo com os flutuadores e é retirado do mar. O aparelho é tracionado para terra pelos 2 cabos simultaneamente. Tradicionalmente a tracção era efectuada por duas juntas de bois, em cada cabo,  a trabalharem alternadamente e apoiadas pela equipa de homens que fica em terra. Actualmente os bois foram substituídos por potentes tratores que facilitam a entrada do barco no mar, a sua retirada, a tracção da rede e todos os trabalhos penosos que esta actividade  implica.

Em 1987, fui dispensado do trabalho nos Hospitais da Universidade de Coimbra, pelo director do Serviço de Ortopedia, durante o mês anterior ao exame final do Internato de Ortopedia, como era habitual nessa altura. Um colega e amigo, o Dr. Altino Santos,  disponibilizou-me  a casa que a sua família tinha na praia de Mira, para melhor me poder isolar e concentrar na preparação do exame.

Para descansar dos períodos de estudo, pegava na máquina fotográfica e ia espreitar o trabalho dos pescadores, que anteriormente nunca presenciara. Aproveitei para tirar algumas fotografias que hoje publico. Nessa altura não havia máquinas digitais, e os curiosos, como eu, tinham maior dificuldade em tirar boas fotografias, porque entre o momento de fotografar e o de observar o resultado, havia um intervalo de vários dias.




























Depois de recolhida a rede, o peixe era separado por categorias e leiloado na praia.

***

Nessa época começou a ser cada vez mais difícil encontrar quem revelasse as películas a preto e branco, e depois fizesse um boa impressão, aproveitando a qualidade dos negativos. Como não tinha material, nem conhecimento, para fazer esse trabalho, acabei por aderir à fotografia a cores.


























Em próxima publicação mostraremos a prática actual, que substituiu os bois por tratores, aliviando muito o esforço humano despendido nesta actividade.