domingo, 30 de julho de 2017


A Parede de Pedra
 
Antigamente, as festas e os bailes nas terras pequenas acabavam muitas vezes com cenas de agressão e pancadaria, principalmente quando um homem  estranho à aldeia se insinuava e conseguia alguma aceitação por parte de alguma jovem que fosse pretendida por um rapaz da localidade.
E se a bulha não surgisse ainda durante a festa, o mais provável é que acontecesse logo a seguir, se o estranho não se ausentasse com a necessária rapidez. Mesmo batendo em retirada, não se livrava de sofrer algum percalço.
Foi o que aconteceu ao Olinto.
Depois de uma festa em que as coisas lhe correram pelo melhor, na qual conseguiu despertar o interesse de uma moça de S. Cosmado, nas Aldeias de Gouveia, despediu-se apressadamente dela com promessa de novos encontros, e pôs-se a caminho da vila de Gouveia pelo caminho mais curto.
Mal tinha iniciado a caminhada começaram a chover pedras sobre ele, pelo que correu desesperadamente até sentir que estava muito próximo da vila e era seguro abrandar a corrida.
Ofegante, quando chegou à vila contou a aventura tal como tinha acontecido, e rematou: "  Nem queiram saber!...atiraram-me tantas, tantas  pedras, que até parecia que vinha uma parede a correr atrás de mim ...Só visto!... "

sábado, 29 de julho de 2017

A minha primeira pescaria
 
 
Em Julho de 1963, tendo eu terminado o exame do 2º ano do liceu, e os meus pais chegado recentemente de Angola para passar férias, fomos instalar-nos em Buarcos, numa casa alugada ao sr. João Baptista, trabalhador na fábrica de cimento do Cabo Mondego.
O Sr. João aproveitava todas as folgas, entre os turnos de trabalho, para ir à pesca, que era o seu passatempo preferido. Não tardou muito que desafiasse o miúdo da casa a ir pescar, e numa bela manhã lá fomos os dois para perto do Cabo Mondego. Eu nunca tinha pescado e não estava ainda familiarizado com a técnica dos lançamentos, pelo que me emprestou uma cana com boia, para pescar à beira das rochas, enquanto ele lançava para mais longe.
Acontece que naquele dia, e naquela fase da maré, o peixe devia andar mais
junto à rocha e eu apanhei cinco belos robaletes, enquanto o sr. João "trouxe a grade" para casa. Como costumava sentenciar o meu pai nestes casos: "a sorte acode sempre à ignorância..."
Da aventura  ficou uma fotografia que o meu pai tirou para perpetuar o momento.


Um peixe invulgar

Se não me engano na data, fui a Paris no ano de 2008 assistir a um Simpósio sobre o tratamento de doenças reumáticas, que tinha um programa do qual constava uma visita ao Instituto de Reumatologia de Paris. Numa das salas do Instituto havia, ao centro, um belo e gigantesco aquário, com bonitos peixes coloridos. Apaixonado que sou, desde sempre, por aquários, logo o fui observar atentamente. Deparei-me com um peixe que desconhecia por completo e que, à falta de melhor nome, decidi baptizar de Sócrates. Vá-se lá saber porquê…   



Um colega assumido

Como algumas pessoas saberão fui durante muitos anos ortopedista nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Há mais ou menos 20 anos fui passar uns dias de férias na zona de Castelo Branco, que já não visitava desde os 11 anos de idade. Para minha surpresa, ao circular por uma
 
 estrada secundária, vi pela primeira vez na minha vida uma placa que anunciava a actividade de um profissional, que quase poderia chamar de “colega”, embora não se dedicasse à vertente cirúrgica da profissão. Fotografei a placa e passou a ser o “slide” final das  minhas comunicações em Congressos de Ortopedia. Juro que não recebi nada pela propaganda…
Chamem-lhe Burro!...
 
Numas férias que passei no Nordeste brasileiro, encontrei numa lagoa de água doce, junto às dunas, um "jegue" que me deu uma bela demonstração de sentido prático, quando, ao mesmo tempo, se refrescou do intenso calor que se fazia sentir,  bebeu e comeu erva fresca até se saciar. 

  

Serra da Estrela

Durante os anos que vivi em Mortágua nunca me apercebi, até há 2 anos,  que podia ver a Serra da Estrela. Quando olhava na sua direcção não identificava, nas montanhas que via, a nossa maior serra.  Mas um belo domingo de sol, ao descer pela Avenida Infante D. Henrique, vi  a serra coberta de neve e pela primeira vez a identifiquei. Por sorte tinha a máquina fotográfica à mão, e tratei de a usar. Para meu espanto, a máquina vê muito melhor do que eu, e na fotografia consigo até identificar as estruturas da Torre.



 

 


João Alfredo “o Pépé”
 
Entre 1977 e 1980 trabalhei durante quase três anos no concelho de Gouveia, de que guardo muitas e boas recordações. No convívio com as excelentes pessoas que aí conheci, tive oportunidade de ouvir histórias locais, algumas com alguns matizes trágicos, mas que revelam um extraordinário sentido de humor dos intervenientes. Uma dessas histórias era a de João Alfredo, conhecido pelo “Pépé”, que conheci e fotografei já com cinquenta e tantos anos de  idade . A história passou-se quando tinha por volta de 7 anos.
O sr. Sá , pai do João Alfredo, homem de muitas profissões, desde barbeiro a fotógrafo “a la minute”, constatando que o seu filho tinha evidentes dificuldades visuais, decidiu levá-lo à consulta do Dr. Fernando Pinheiro, oftalmologista.
Tentando avaliar a intensidade da deficiência, o Dr. Pinheiro apontando o quadro optométrico, perguntou ao João Alfredo:
-Então que letra é esta, meu menino?
- Qual letra?  respondeu o João
- Esta, aqui neste quadro!
- Qual quadro?
- Aqui nesta parede!...
- Qual parede?...
O oftalmologista, apercebendo-se da gravidade da situação, tentou explicar ao pai do João Alfredo que iria receitar uns óculos, mas mesmo assim eram melhor ir preparando a criança para uma profissão em que não precisasse de grande acuidade visual.
O sr. Sá ouviu atentamente a explicação, após o que retorquiu ao Dr. Pinheiro:
- Não há problema, Sr. doutor. Está decidido… vai para pescador de baleias….
Infelizmente não havia baleias na Serra da Estrela.
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Propósito

Este blog é destinado a escrever algumas das histórias que vivi, ou ouvi contar, e que tentarei reproduzir com fidelidade. Das que ouvi, não posso assegurar que correspondam à verdade, mas penso que merecem registo, com a esperança de despertar uma gargalhada a algum leitor momentaneamente mais triste.
Publicarei algumas fotografias de minha autoria, e outras em que também sou o objecto da fotografia.
Ocasionalmente publicarei algum  documento interessante que me diga respeito.